sábado, 31 de julho de 2010

Carta a alguns amigos,

Amigos, chamo-os de amigos porque os distingo como leais (alguns distantes) parceiros de sonho. Dores, alegrias, frustrações e entusiasmos juvenis nos uniram através da palavra escrita. Portanto, por vocês, retomo a série de textos que denominei de “Mentoria”. Quero participar, de alguma forma, na aventura de viver; talhando, no granito, nossos sonhos e marcando, na areia, nossas pegadas.

Escrevo com sentimentos ambíguos. Por um lado, vivo os momentos mais intensos e frutíferos de minha vida e ministério. Por outro, reconheço, convivo com uma vizinha azeda: a tristeza. Mas sei que não estou só, ela nos azucrina e nos açoita sempre que pode. É uma tristeza latente, que participa de toda a angústia humana. A que Pascal chamava de enui e Sartre, de náusea. Nos últimos anos, recebi coices, frutos de minhas provocações, mas alguns, convenhamos, de maldades gratuitas. Os baques me deixaram tonto, com vertigem que ainda não passou.

Contudo, li “Trem Noturno para Lisboa” de Paul Mercier, Editora Record, e o autor aconselha que nos reconciliemos com a desilusão:



A DESILUSÃO é considerada um mal. Trata-se de um preconceito irrefletido. Como, se não através da desilusão, iríamos descobrir o que esperamos e desejamos? E onde encontrar um momento de autoconhecimento, senão precisamente a partir desta descoberta? Como alguém poderia ter clareza acerca de si próprio sem a desilusão?

Não deveríamos sofrer as desilusões suspirando como algo sem o qual nossa vida seria melhor. Deveríamos procurá-las, persegui-las, colecioná-las. Por que me sinto desiludido com o fato de todos os atores idolatrados da minha juventude agora revelarem os traços da idade e da decadência? O que a desilusão me ensina sobre quão pouco vale o sucesso? [...]

Alguém que realmente quer conhecer a si mesmo deveria ser um colecionador obcecado e fanático de desilusões, e a procura de experiências decepcionantes deveria ser, para ele, como um vício, na verdade como um vício dominante de sua vida, pois então ele compreenderia com toda a clareza, que a desilusão não é um veneno quente e destruidor, e sim um bálsamo refrescante e tranquilizante que nos abre os olhos para os verdadeiros contornos de nós mesmos.

(Paul Mercier em Trem Noturno para Lisboa - Editora Record, p. 233).

Confesso publicamente minhas desilusões. Contudo, procuro desalojar a decepção de seu negativismo. Assim, acredito que algumas questões não podem ficar esquecidas devido as angústias. Enfrentemos as tristezas. Elas não são tão medonhas como parecem.



1. Os períodos magros, as estiagens, os marasmos não significam fracasso automático. A história há de repicar. A vida não é paraíso, nem inferno. Compete-nos a dura tarefa de não nos deixar esmagar pelo sofrimento ou inebriar pelo triunfo. Diante da real possibilidade de nossos projetos fazerem água, não nos iludamos com desculpas esfarrapadas. Os insolventes podem se reinventar. Ressurreição é termo que só se aplica a quem passou pela experiência da morte.

2. As tribulações oferecem excelente oportunidade para percebermos o excesso de bagagem. O que se tornou oneroso na vida? O que foi procrastinado em nome de lealdades institucionais? Na borrasca, joguemos fora a carga desnecessária. Assumamos a coragem de dizer adeus ao que não tem valor.

3. Nas desilusões, nos adequamos ao pior, e qualquer leve melhora parece um paraíso. Aprendemos a sobreviver sem fazer concessão, sem negociar valores, sem vender a alma. As desilusões nos incitam a fazermos reengenharia de nossa estrutura existencial.

Ricardo Gondim
http://ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=104&sg=0&form_search=&pg=1&id=2302

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