terça-feira, 21 de setembro de 2010

Se te amar perderei tudo, mas me pergunto: existiria tudo sem voce?
Se o tudo sem voce é nada, então já não desejo nem tudo, nem nada.
Se durmo e acordo com tanta regularidade é para manter a esperança de encontrá-la hoje ou amanhã.
Desisti de navegar grandes mares, vc é a volta ao mundo que dar em todas as noites e manhã.
Não importa quão longa e tempestuosa seja está viagem, buscarei sempre o porto protegido por debaixos dos teus cabelos.
Daria tudo para ser prisioneiro do teu amor, pediria todas as noites o açoite do teu corpo para depois descançar em teus seios.
Dividiria meus sonhos em mil apenas para que houvesse tempo para que vc estivesse encaixada em todos.
Já dizia o poeta: o céu, conheci o céu pelos olhos teus..
Pelo tempo que procuro por minha amada descobri que ela viva em mim, no avesso dos meus olhos. Vou em sua busca, boa noite!
Samuel Braz

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Qual teológo é vc

Anselmo
83%
Martinho Lutero
75%
Friedrich Schleiermacher
75%
Paul Tillich
67%
Jurgen Moltmann
67%
Rudolf Bultmann
50%
Santo Agostinho
33%
João Calvino
33%
Karl Barth
33%
Charles Finney
17%
Jonathan Edwards
17%

http://quizfarm.com/quizzes/new/xcore/qual-telogo--voc-verso-012/


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Minha Igreja Tem Cai-Cai

Por Bráulia Ribeiro


Para ter unção, dizem que o crente precisa viver fora do mundo e outras bobagens mais. E quem olha de fora tenta entender cada detalhe, revestindo-se de preconceitos.



Minha igreja é destas que tem cai-cai, estrebucho e chororô. Aos domingos, quando cai a unção, homens e mulheres, crianças e adolescentes, profissionais liberais, garis, prostitutas e doutores se misturam num carnaval maluco, sem máscaras e sem fantasia. Todos dançam e pulam; alguns desconjuntadamente; outros, como pipoca no óleo quente. Outros, ainda, movimentam-se como num balé new age bem elaborado, em que se perdem sozinhos em seu mundo de adoração, como se estivesse no seu próprio quarto. Alguns gritam – gritos viscerais, primais, enlouquecidos; outros balbuciam extasiados palavras sem sentido. Alguns apenas caem em êxtase, como se tocados por um dedo gigante, e outros ficam no chão, rindo e chorando por muito tempo.

É estranho estar no meio de tudo isto. Você se torna quase um espectador do teatro do absurdo. Por mais que se confronte com o inusitado, sempre se surpreende a cada nova pessoa tocada, a cada profissional circunspecto que de repente se vê no chão despido de qualquer vergonha na cara. No começo, era uma espécie de playcenter espiritual; queria-se reunião todos os dias, numa ânsia pelo toque sobrenatural. A unção se tornou melhor do que qualquer coisa, do que os bate-papos a que estávamos acostumados antigamente, do que as festas regadas a muita comida, que eram comuns no dia-a-dia da igreja. Queríamos a emoção de cair, de perder o controle, de sermos tomados por aquela coisa nova. Um amigo médico definiu o processo como a “cocaína espiritual”. Cocaína da qual não se sai “deprê”, mas que vicia igualmente. Cocaína que produzia cura.

Lembro-me de outro amigo, profissional respeitado na cidade, que por respeito acompanhava a mulher para a igreja anos a fio. Sincero, dizia abertamente que não era crente, sempre querendo se preservar o direito de dar umas pecadinhas sem culpa. Mas, um belo dia de unção, lá estava o sujeito no chão, rolando suas roupas de marca pelo piso sujo de um galpão. Por mais que eu quisesse me desligar da imagem dele e louvar no meu canto, não conseguia parar de olhar as reviravoltas que ele dava – ora como um capoeirista exímio, ora como um lagarto desengonçado. Toda a dureza e indiferença cínica daquele homem rompeu-se e deu lugar a um zelo intenso pelo Evangelho e confissões públicas inimagináveis.

Na época, deflagrou-se uma guerra entre os membros da denominação quando começamos a nos “viciar” naquela cocaína divina. Muitos não se conformavam com o novo modelo, e vociferavam que Deus não podia fazer coisas nem proporcionar tais manifestações. Eu, cá do meu canto, sabia que não podia decidir as coisas que Deus pode ou não fazer – primeiro, porque sou mineira, assim como disse o caboclo depois que viu o sexto elefante cor de rosa voando por cima da cabeça: “É, cumpadi, parece que o ninho deles é pra lá mermo...” O Deus que falou em coluna de fogo, que apareceu em nuvem, que derrubou muralha com buzina, que abriu e fechou mares e rios, pode continuar fazendo o que bem entende. Um Deus que, na forma de homem, curou cego cuspindo no chão, andou em cima d’água, pescou peixe com moeda na barriga, morreu na cruz e ressucitou de maneira espetacular, pode continuar fazendo o que bem entende.

Fiquei a observar os resultados. Sei que a indiferença generalizada que reinava na igreja antigamente virou entusiasmo. Sei que homens que antes passavam o tempo do culto a pensar em seus problemas ou a desnudar as mulheres com o olhar, hoje, tocados por uma compaixão estranha, choram como crianças e pregam o Evangelho com paixão. Sei que mulheres mal-amadas, endurecidas pela vida, de repente desabrocharam em flor, como a moça da janela de A Banda do Chico Buarque. No meio disso tudo, alguns de nós querem teologar em cima de experiências e desenvolvem toda uma filosofia da preservação da “unção” na igreja, carregada de proibições neuróticas e de culpa. Para se ter unção, não pode isto não pode aquilo; não pode roupa de uma determinada marca, não pode música de ritmo afro; só o que é judeu é santo, o resto pertence ao diabo – que, aliás, acaba sendo um sujeito mais criativo que o próprio Deus, que não conseguiu inventar nada além daquelas musiquinhas judaicas em tom menor.

Assim, para ter unção, dizem que o crente precisa viver fora do mundo e outras bobagens mais. E quem olha de fora, ou seja, os acadêmicos da religião, tenta racionalizar e entender cada detalhe, revestindo-se de preconceitos histórico-teológicos. Apesar de cristãos, são mais céticos do que os incrédulos. Do meu canto, observo uma mulher de vida difícil levantar-se do banco ir ao altar pela primeira vez, querendo ver a Jesus e sendo tocada por uma mão sobrenatural de amor que a faz chorar e rir durante horas. Naquele choro, sua alma é lavada, suas culpas freudianas são extirpadas, sua sensação de miséria interna se torna em valor precioso. E ela levanta dali numa inteireza que duzentas horas de sermão não produziriam.

Edgar Morin, grande filósofo da educação, fala sobre cegueiras paradigmáticas. Segundo ele, “um paradigma pode, ao mesmo tempo, elucidar e cegar, revelar e ocultar. É no seu seio que se esconde o problema-chave do jogo da verdade e do erro”. Ou seja, por ficarmos viciados num tipo de paradigma lógico, não conseguimos pensar fora dele, nem muitas vezes analisar coerentemente fatos do mundo ao nosso redor. No entanto, não somos capazes de perceber esse erro porque estamos presos na falsa lógica produzida pelos axiomas em que acreditamos.

O mundo protestante do Brasil hoje apresenta dois paradigmas principais – o dos experiencialistas, para os quais a experiência é tudo, o centro, a verdadeira razão de ser do Evangelho; e o dos racionalistas, que apesar de não admitirem abertamente, excluem a experiência do escopo de sua fé. Estes controlam o que é possível e racional no âmbito “espiritual”, discriminam experiências e vivências de acordo com sua própria concepção do que é ou não racional. Ambos sofrem de cegueira paradigmática. O grupo de cá, voltado para o supremo poder da experiência mística, cega-se para os desatinos que o “império dos sentidos” produz, e infelizmente ignora o leme racional da Palavra. Assim, anda à deriva, movido por ventos de doutrinas, medos legalistas e arroubos personalistas.

O grupo de lá, conservador e racional, primando pelo amor à Palavra, ignora o lado místico da fé, sem o qual a própria fé deixa de ter sentido. Perde a oportunidade de experimentar o mover legítimo e curativo de Deus, o derramar do Espírito Santo que foge à nossa capacidade racional de explicá-lo, ultrapassa nossos limites religiosos e alcança almas e corpos com curas e prazeres que nossa teologia casta e asséptica não é capaz de gerar. Do mesmo modo que o grupo experiencialista exclui toda lógica – e, muitas vezes, todo parâmetro bíblico de sua fé –, o lado metafísico de Deus se torna ausente da lógica viciada da teologia racionalista.

A verdade é que caráter nunca será ministrado por imposição de mãos. A unção nunca substituirá a cruz a ser carregada ao longo de nossa jornada, gerando o verdadeiro cristianismo. A educação e o entendimento da Palavra nunca poderão ser relegados ao segundo plano; nossas mentes devem ser lavadas e transformadas pelas Escrituras, sem a qual a revelação nem existe. Mas ainda assim, a brisa suave do noivo está passando – e, quando ele passa, nosso coração amolece e nossos olhos querem chorar. Ele me ama, e eu sinto isto. É bom adorar por horas seguidas, sem olhar o relógio, e sentir-se limpo, perdoado e próximo do Senhor. É bom saber que Deus é concretamente e transcendentemente eficiente e poderoso para curar corpos, almas, dores, mágoas e teologias... E não há prazer maior que este.


Fonte: Bráulia Inês Ribeiro via: Revista Eclésia


Leia Mais em: http://www.genizahvirtual.com/2009/04/minha-igreja-tem-cai-cai.html#ixzz0ysRqCxey

Minha declaração de (não) fé

Alan Brizotti


Resolvi fazer uma lista de coisas nas quais não creio, uma espécie de não-credo, de declaração de falta de fé, ausência total de comprometimento com as tais, são elas:


Não creio na fé sem amor: não é fé, mas apenas discurso religioso adoecedor.

Não creio na teologia sem amor: não é teologia, mas apenas acúmulo de informação religiosa neurotizante.

Não creio na igreja sem amor: não é igreja, mas apenas ajuntamento de pessoas sob a pseudo aura do "sagrado".

Não creio no ministério sem amor: não é ministério, mas apenas serviço burocrático de indivíduos com mania de divindade exibicionista.


Não creio nas profetadas e suas bizarrices batizadas de "santidade": não são profecias, mas apenas o ridículo disfarçado de unção.

Não creio nas bênçãos dos profetas da prosperidade: não são bênçãos, porque só quem abençoa é Deus e Ele não compra minha fé.

Não creio nas maldições dos profetas da Al Qaeda divina: não são maldições, são apenas um revanchismo sagrado movido a vingancinhas medíocres.


Não creio em qualquer um...


Não creio em milagre todo dia: milagre não é rotina, se assim for já não é milagre.

Não creio em gente que cai no "espírito" mas não consegue andar no Espírito.

Não creio em línguas esquisitas quando a mesma língua ainda não foi transformada pelo Espírito da Palavra.

Não creio em "massagens de púlpito", mas em Mensagens do céu!

Não creio em encontros de casais erotizados e vulgares, produtos envergonhados de uma importação da mídia em sua sensualidade abusiva, prefiro encontros de casais que promovam o redescobrir do encanto...

Não creio numa série de outras coisas... mas como dizia Kierkegaard, "Com a ajuda do espinho em meu pé, salto muito mais alto".


Leia Mais em: http://www.genizahvirtual.com/2010/05/minha-declaracao-de-nao-fe.html#ixzz0ys0U3PL7

domingo, 29 de agosto de 2010

Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar

Paulo Brabo - Bacia das Almas

Para começar por aquilo que incessantemente ignoramos ou esquecemos: a doutrina da morte substitutiva de Jesus (a noção de que Jesus morreu a fim de satisfazer em nosso lugar algum requerimento ligado à coerência interna da divindade) foi articulada pela primeira vez mil anos depois de Cristo, por Anselmo (1033-1109). Talvez seja necessário reler este parágrafo.

A tradição cristã defendeu desde sempre, a partir de indicações do Novo Testamento, a dupla noção de que a morte de Jesus foi de alguma forma necessária, e de que a passagem de Jesus pela terra – incluindo sua vida, morte e ressurreição – ocasionou de um modo misterioso mas inequívoco a Singularidade, a plenitude dos tempos, a redenção dos homens. Porém Anselmo foi o primeiro a tomar sobre a si a tarefa de montar um sistema teológico que explicasse exatamente porque a cruz havia se mostrado necessária, e de que modo a obra de Jesus havia ocasionado a redenção.

E para ele tudo tinha sido uma questão de honra.

Segundo Anselmo, a obrigação primeira de todos os homens é devolver a Deus a honra que lhe pertence por direito. Pecar é essencialmente sonegar a honra devida a Deus: é ao mesmo tempo roubá-lo de sua dignidade e desonrá-lo. O problema está em que, como a honra é a característica mais inegociável da natureza divina, Deus não é livre para perdoar o pecado por um simples ato de vontade: “nada é menos tolerável na ordem das coisas do que uma criatura tomar do Criador a honra que lhe é devida sem repor aquilo que tomou”. O pecado gera um débito, diante do qual a reparação da dignidade divina só pode ser obtida de duas formas: [1] pela punição implacável dos devedores ou [2] pelo satisfação da dívida, o que só ocorre quando se devolve a Deus mais do que foi tirado dele.

A redenção, então, se resumiria nisso: o homem deve devolver a honra que roubou de Deus; como só um homem deve satisfazer esse débito e como só um Deus é capaz de efetuá-lo, foi necessário que o homem-Deus fosse obediente até a morte para reparar essa injustiça e restaurar o prestígio divino.

A teologia de Anselmo (que acabou sendo conhecida como doutrina “satisfacional” ou, de modo ainda mais revelador, doutrina “comercial” da redenção) é, como todas, reflexo rigoroso da época em que foi concebida. A ideia de satisfação era fundamental na justificação do sistema corrente de penitências; a ênfase no ressarcimento era característica da obsessão romana/latina com o Direito Penal; e, finalmente, os conceitos de honra ferida e de compensação da honra através da obediência eram parte essencial da estrutura ideológica do feudalismo em que Anselmo vivia1.

A primeira e maior falha na doutrina de Anselmo é também aquela que geraria mais graves consequências no futuro. Ao limitar a redenção à satisfação de um débito e ao limitar essa satisfação à obediência da cruz, Anselmo isolou a morte de Jesus do restante de sua obra de vida. A obsessão com os méritos da morte acabaria tornando a vida de Jesus irrelevante – como se sua vida não tivesse feito parte parte do seu esforço redentor. Nas palavras de Harnack: “Esse Deus-homem não precisava ter pregado e fundado um reino; nenhum discípulo precisava ter sido reunido: dele só era requerido que morresse.”

Em segundo lugar, se a redenção é essencialmente uma estratégia de Deus para recuperar o seu próprio prestígio, seu motivo não está fundamentado – a despeito da insistência das Escrituras neste ponto – no seu amor aos homens, mas no amor ao prestígio. Anselmo inaugurou um universo em que Deus mandou seu filho ao mundo por sua causa, não nossa. Ao contrário do que parecem insistir os autores bíblicos, a ênfase da reparação não está na reconciliação entre as partes, mas na restauração da mesma sorte de prestígio que um vassalo deve reconhecer ininterruptamente no suserano.

Finalmente, se a satisfação do débito é tão absolutamente incontornável e central na economia da redenção, em que a morte de Jesus tem a significância de uma transferência bancária, Deus é em última instância incapaz de perdoar, ao contrário do que sugerem a Bíblia e a tradição. Se o único modo de apagar a dívida é o inevitável ressarcimento, a fim de aprendermos a perdoar, desligar e esquecer devemos recorrer a um exemplo que não seja Deus. Orar pedindo “perdoa as nossas dívidas” passa a ser uma incorreção teológica e uma temeridade.

A doutrina de Anselmo ganhou poucos aderentes e causou quase nenhum impacto por 400 anos. Seu duvidoso mérito foi ter servido de base para a teologia da Reforma, que ecoa, será inevitável lembrar, com os mesmos temas: pagamento de débito, substituição, a redenção jurídica de uma condenação inalienável.

Lutero começou onde Anselmo havia começado, com a noção de que Deus não é livre para perdoar os pecados por um ato de livre vontade, porque o perdão do pecado não punido seria essencialmente injusto. Porém, ao contrário de Anselmo, que postulava que a redenção visava preservar a dignidade de Deus, Lutero sustentou que o que estava sendo protegido era a ordem moral do universo, que absolutamente requer alguém em quem se descarregar os débitos morais gerados pelo pecado.

Em Lutero a característica incontornável de Deus não é a sua honra, mas a sua justiça. Ao contrário do que havia sugerido Anselmo, a satisfação do pecado não pode ser obtida através da obediência, mas através da punição.

Se Anselmo havia drenado todo mérito da vida de Jesus e concentrado o mérito em sua morte, Lutero deu o passo seguinte nesse projeto de alienação. Para Anselmo, somos resgatados porque Jesus obedeceu quando nós é que deveríamos ter obedecido; para Lutero, somos resgatados porque Jesus foi punido quando nós é que deveríamos ter sido punidos. O mérito da morte de Jesus não foi ativo, como Anselmo havia pensado (obediência), mas meramente passivo (punição). Nas palavras de Jonathan Edwards, o moço:

Ouso dizer ainda que, não apenas a redenção de Cristo não consistiu essencialmente em sua ativa obediência, como sua ativa obediência não teve qualquer papel na redenção.

Se Anselmo havia conferido ao mundo um Deus obcecado com sua própria dignidade, Lutero deu ao mundo um Deus que não apenas imolou o seu Filho Amado, mas derramou sobre ele toda a ira e toda a maldição, porque sua justiça absolutamente requeria que ele descarregasse essas penas sobre alguém. Está dito na Confessão Saxã (1551) de Melâncton: “tamanha é a severidade da sua justiça que não pode haver reconciliação a não ser que a penalidade seja paga. Tamanha é a intensidade da ira de Deus que o Pai eterno não pode ser aplacado a não ser pela morte de seu Filho”.

Em conformidade com isso, Lutero deixou abundantemente claro que o seu Deus era limitado e definido pela justiça e não pelo amor. Seu Deus não tinha obrigação alguma de ser misericordioso, mas absolutamente não tinha como deixar de ser justo.

A Reforma ganhava assim um discurso – em vocabulário contemporâneo, um “diferencial”. Em Lutero a redenção encontrava uma explicação que ganharia tremenda popularidade porque refletia, num momento de absoluta transição, todo o espírito da nascente era Moderna. Ao mesmo tempo em que os homens descobriam e começavam a brincar com as Luzes que conduziriam aos movimentos nacionais e à Revolução Industrial, a Reforma oferecia uma doutrina em que a morte de Jesus não tinha apenas um significado (o que muito evidentemente não lhe bastava), mas uma lógica e um mecanismo: uma utilidade.

De tão imbuídos que estávamos no espírito dos tempos, tornamo-nos incapazes de enxergar que uma doutrina que nega qualquer significado ao trajeto terreno da encarnação, que não vê mérito na obediência do Filho do Homem, que postula um Deus incapaz de perdoar sem o recurso da satisfação, um Deus que é Justiça em tamanho grau que não pode dar-se ao luxo de ser Amor – não tem direito a requerer para si qualquer relação com o Deus de Jesus.

Porque, se em última instância o pecado não pode ser perdoado sem o gosto da satisfação, Lutero revelou um mundo em que a graça não é efetivamente graça e efetivamente não pode ser. Este é um universo em que tudo requer pagamento, em que nada pode ser livremente perdoado e em que toda condenação é inalienável (embora algumas sejam felizmente transferíveis). Na doutrina de Lutero Deus não vence a Lei, mas é vencido por ela mesmo no seu mais glorioso instante. A misericórdia não triunfa sobre o juízo, porque o juízo é de pedra e nem mesmo Deus pode conferir a ele um coração de carne.

O curioso está em que o Novo Testamento não nega que o pecado gera um débito; tanto em Jesus quanto em seus cronistas, a ideia de dívida é uma das figuras mais comumente associadas à noção de transgressão. Porém, ao contrário do que sugerem Anselmo e Lutero, a posição da boa nova não é de que o débito requer inescapavelmente o pagamento por parte do devedor ou de um seu substituto. Ao contrário; os evangelhos insistem que a solução da Magnanimidade para o débito não é a satisfação, mas a clemência, o indulto, o perdão: assim no batismo, assim nas parábolas, assim no “setenta vezes sete”, assim na oração do Pai Nosso, assim na absolvição dos executores diante da cruz. “A miseriórdia triunfa sobre o juízo” quer dizer isso mesmo: o amor triunfa sobre a satisfação.

Cada um a seu modo, Anselmo e Lutero abraçaram a Empresa Teológica, que é o esforço muito humano e contraditório de tentar defender a qualquer custo aquilo que em cada momento da história é tido como a coerência interna da divindade. A teologia nasce do amor à ordem, não do amor a Deus. Anselmo afirma claramente que sua doutrina parte do pressuposto de que o universo não deve permanecer desordenado (inordinatum). Não é de admirar que tanto ele quanto Lutero tenham defendido com unhas e dentes a teoria da satisfação, porque é uma doutrina que impõe alguma lógica sobre o que parece não ter razão alguma. No fim das contas o perdão puro e simples representa a maior e mais espetacular das desordens, e esse escândalo os homens moverão terra e céu para deslocar de seu campo de visão.

O Deus da Bíblia, ao contrário do que sugerem essas distrações, é inteiramente incapaz de encontrar satisfação na agonia, na punição e no castigo, que representam mais adequadamente as preferências de Moloque. Muito claramente, e disso dão testemunho todas as parábolas (que são a expressão mais precisa da realidade da redenção), o que pode satisfazer a divindade é somente a integridade voluntária, somente o retorno filial, somente o abraço incondicionado da demanda pela bondade, pela aceitação e pelo amor. É quase criminoso que tenhamos demorado tanto tempo para condenar a noção de que Deus possa se satisfazer com menos.


Leia também:
O amor é mais severo do que a justiça
O clamor que provoca
A sedução da ortodoxia



NOTAS
1. “O pecado”, explica Anselmo, desligando o conceito do campo da ética e deslocando-o para o da política, “é uma afronta à sua infinita majestade”.

http://foradazonadeconforto.blogspot.com/2010/06/os-discursos-ausentes-jesus-morreu-em.html

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A inveja caiada

Pensado por Roger

Sobre o recente episódio Caio contra Gondim (via Pavablog) não há muito o que ser dito. Mas muito que se lamentar. Nesse último vídeo Caio Fábio faz um ataque mais direto a um amigo que prezamos, e isso dói.

Nossa reação é tomar partido, fazer piadinhas para diminuir a figura do amazonense - como a do título desta postagem que mistura o nome Caio com a hipocrisia do Cal, é chamá-lo respeitosamente de bundão mor, invejoso e coisas do gênero. Uma outra possibilidade é partirmos para a análise fria de todo o perfil psicológico do cenário verborrégico do cidadão e assim denegrir descordialmente a já arranhada imagem de alguém que já surfou homericamente na crista da onda, até tomar o famigerado caixote e jazer na praia com a boca cheia de areia e algas.

Ao percebermos que nosso desafeto reagiu ao ser chamado de invejoso, supõe-se que ali esteja o ponto fraco, e poderíamos usar a tática de cutucar essa ferida até vê-la sangrar.

É lamentável tudo isso, mas é humano, acontece nas melhores famílias.

No fundo, pensando melhor, essa guerra – a da inveja, do ciúme, do orgulho, das ambições – é uma guerra sem vencedores. Mais do que partidarismo, prevalece contudo um desejo ou um sentimento de justiça. Percebemos que há um ataque gratuito, um dano moral, um abuso. Nasce então o desconforto e a necessidade de punir o mal, o malfeitor, ou no mínimo detê-lo, ridicularizá-lo...

Nesse afã a internet está carregada e até lenta por causa das lutas de gladiadores virtuais. Eu mesmo me coloco vez ou outra no centro da arena para vexame próprio, na ilusão de que ao ver o inimigo caído ensanguentado, poderei bater no peito e ser alvo da admiração de um platéia de dezenas ou quiçá centenas de internautas.

O coração acelera. Os nervos se contorcem. Por que Deus quereria a doçura da vingança só para Ele? Por que caberia ao frouxo e injusto estado o papel de vingador? Até quando esperar? Vencer o mal com o bem seria uma máxima absoluta? Onde estão os limites dessa regra que nos empurra para a covardia com a desculpa de estarmos sendo espirituais?

Por que não admitirmos nossas próprias DÚVIDAS ao invés de encobertá-las? Por que manter uma fachada para reivindicar um papado perdido, vendido por um manjar de lentilhas?

Por que atacar a POESIA, não é ela quem nos liberta do abuso que a razão faz das palavras transportando-nos para a dimensão pura da comunicação?

Mais uma vez, lembro-me do Pequeno Príncipe.

A fala é a fonte dos mal-entendidos.

A atitude de Caio Fábio me revelou: Nem tanto que a fala faça com que uma pessoa deixe de fazer-se entendida a outra; mas muito mais, a fala tem o dom mágico de fazer com que outras pessoas entendam e percebam coisas sobre seu coração, que nem ela mesmo, entende ou perceberia – talvez sim, se tivesse permanecido no silêncio.

Houve um dia em que eu sonhara em ser um pacificador e poder, quem sabe assim, ser chamado filho de Deus. Fracassei um sem número de vezes.

Admiro porém os perseguidos, pois sei que a eles está reservado o Reino dos Céus. Até chego a invejar aqueles que são perseguidos de forma tão efêmera, como via internet. Sei que a dor das pedradas virtuais dói infinitamente menos que a dor das pedras verdadeiras. Não quero dizer com isso que seja café pequeno, o ser perseguido só com palavras, não, constrange, ofende e dói.

Tem muita gente que paga injustamente e sofre danos morais, mas tem gente que pagou com sangue e vida. A estes eu só admiro e, por covardia própria, não chego a invejar.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

provébio iraniano

"A verdade é um espelho que caiu das mãos de Deus e se quebrou. Cada um recolhe o pedaço e diz que toda a verdade está naquele caco."

provérbio iraniano

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Também sou um sobrevivente

Ricardo Gondim

Li e reli “Alma Sobrevivente” do Philip Yancey (Mundo Cristão, 2004). No livro, Yancey confessa seu quase abandono da igreja evangélica. O fundamentalismo, racismo e obscurantismo de sua pequena comunidade no sul dos Estados Unidos quase o asfixiaram na fé. Identifiquei-me com o autor em seu desencanto.

Por outras razões, já pensei em me auto-exilar do mundo evangélico; aliás, já cogitei, até cometer um “suicídio institucional”. Só não o fiz porque minha biografia, como a dele, também foi marcada por gente, histórias comovedoras e testemunhos formidáveis que me preservam a fé cristã. Eu também posso listar pessoas e eventos que não me deixam desistir. Recordo-me de dois acontecimentos significativos.

Há alguns anos, fui convidado para pregar em uma igreja evangélica carismática no Canadá. Eu e minha família aterrissamos naquela pequena cidade, debaixo de um frio de 28 graus negativos. Um pavor, para quem chegava do Ceará. Porém, não me assustei com o clima quente dos cultos pentecostais canadenses. Vindo da Assembléia de Deus brasileira, já me acostumara com reuniões emotivas e sempre eufóricas.

Falei em três ocasiões diferentes. No domingo, depois que findou o culto, fomos convidados para uma “reunião de grupo caseiro”. Essa igreja participava de um movimento que procurava identificar os interesses dos membros para estabelecer “redes ministeriais” que serviam para formar vínculos entre as pessoas e para evangelização. Na casa que fomos visitar, todos tinham o “dom de colecionar miniaturas de trens”.

O sistema funcionava da seguinte maneira: oito ou nove casais que se interessavam em colecionar miniaturas de trens, se reuniam semanalmente e, enquanto trocavam idéias, consertavam, montavam e faziam os trens passearem, desenvolviam boa fraternidade. Os encontros serviam também de “isca” para atrair pessoas refratárias à fé. Não-cristãos que se interessassem por trenzinhos poderiam ser convidados para essas reuniões e ser evangelizados.

Como éramos de um país pobre e nunca havíamos participado de uma fraternidade cristã que usava trens em miniatura para gerar interesse pelos conteúdos do evangelho, recebemos uma verdadeira aula sobre o funcionamento do grupo e sua lógica ministerial. Cada um queria mostrar sua coleção de vagões, a montagem dos trilhos e as mini-estações com minúsculos passageiros. Espantei-me com a quantidade de dinheiro gasto com o passatempo dos irmãos. Uma autêntica réplica de uma locomotiva a vapor do início do século 20, se não me engano, havia custado 8 mil dólares.

Fui dormir angustiado naquela noite. Meu coração não me deixava dormir. Eu me perguntava: “Onde o cristianismo ocidental se perdeu?”.

Cinco dias depois, cheguei aos Estados Unidos, no estado de Virginia, para três palestras no final de semana. Mas, desta vez, minha vida seria impactada de forma diferente. Eu experimentaria um dos momentos mais significativos de minha vida e cuja memória mantém minha fé viva ainda hoje.

Preguei numa igreja também carismática. Quando terminou o culto do sábado, um rapaz me convidou para jantar na casa do reitor da Universidade Estadual. Segundo ele, o reitor já visitara o Brasil e se sentiria muito feliz em me conhecer.


Hoje, já não me lembro do nome do reitor, mas vou chamá-lo de John Doe. Ao lado de sua mulher, ele me recebeu com um largo sorriso. Os dois abriram os braços e saudaram com um “bem vindo” em português com fortíssimo sotaque.

A família freqüentava uma igreja presbiteriana bem formal em sua liturgia e bem liberal em sua teologia. Bastaram alguns minutos e entendi a ligação do casal com o Brasil.

Eles tinham uma família de treze filhos, todos adotivos e com alguma deficiência física. O casal decidiu que adotaria crianças de vários países do mundo em situação de abandono, ou por carregarem alguma doença genética ou por sofrerem algum estigma cultural. Assim, tinham uma filha coreana que era cega, surda e muda, um menino africano que nascera sem as pernas, dois ou três com síndrome de Down, e outros com diferentes anomalias genéticas. Os brasileiros eram três: uma menina cega, vinda do sertão da Paraíba e dois meninos infratores, que viviam abandonados nas unidades da Febem de São Paulo e Rio de Janeiro.

Sentamos à mesa e agradecemos a Deus pelo alimento; enquanto comíamos, eu tomava consciência que jamais seria o mesmo. A glória de Deus encheu aquele lar com uma leveza que, em alguns momentos, precisei me beliscar para perceber que não sonhava. Tentei conter minhas lágrimas que escaparam duas ou três vezes e que limpei com o guardanapo de papel.

Não resisti e narrei para eles a diferença abismal entre aquela noite e a dos trenzinhos, que tanto me chocaram. John Doe, educado e discretíssimo, não quis alongar minha observação, apenas comentou: “É uma pena, lá eles nunca ouvirão a voz doce de uma criança, dizendo, ‘obrigado, papai’”!.

Despedi-me da família e minha jornada espiritual deu uma guinada. Primeiro, percebi como é fácil adequar o evangelho de Jesus Cristo à mentalidade consumista de uma classe média burguesa, e ainda justificar essa manipulação, com um rótulo espiritual. Depois, roguei para que minha vocação, como pastor pentecostal, não contribuísse para fomentar uma espiritualidade desencarnada. Eu já participara de muitos ambientes em que o clima emocional não se transformava em atos de justiça.

Mas acima de tudo, naquela noite, perdi alguns dos meus preconceitos. Eu fora treinado com uma formação teológica que evitava contato com os liberais. Gente que não lesse a Bíblia e não soubesse repetir o nosso catecismo, deveria ser mantida à distância. De repente, eu estava sentado à mesa de um homem que cultuava a Deus em uma igreja que eu considerava fria. Contudo, seus valores cristãos eram muito mais nobres que os meus.

A partir daquele jantar, abri-me para pessoas que vivem fora dos contornos de meu gueto religioso. Aprendi que muitas vezes, outros também encarnam os valores do Reino de Deus até com mais exuberância do que os que se auto-intitulam defensores da sã doutrina.

Acredito que foi Santo Agostinho quem disse: “Deus já possui ovelhas em seu aprisco que a igreja ainda não alcançou”. Hoje celebro os gestos nobres de instituições como Médicos Sem Fronteiras, reverencio o altruísmo de freiras que cuidam de orfanatos e respeito a disposição de padres que se entregam a leprosos. Louvo a Deus por cristãos que, mesmo não participando de nenhuma instituição, comportam-se como bons samaritanos.

Enquanto ceava com o senhor John Doe e sua linda família, recordei-me das palavras de Jesus quando ele reunir todas as nações no último dia. O Senhor separará uma das outras, como pastor separa as ovelhas dos bodes e dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos do meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber, fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive preso, e vocês me visitaram’ (Mateus 24.31-46).

Madre Teresa repetia que cuidava de mendigos e leprosos com todo amor, porque Deus poderia estar disfarçado no meio deles. E as palavras de Jesus confirmam: “Digo-lhes a verdade: o que vocês fizerem a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”.

Em dezembro de 2004, um cristão sugeriu que eu usasse relógio, não para marcar horas, mas como uma jóia. Ele confessou que colecionava vários modelos suíços como verdadeiras relíquias. Enquanto ele tentava me convencer, lembrei-me do reitor John Doe, e na noite do réveillon, preferi dar meu dinheiro para as vítimas do Tsunami.

Soli Deo Gloria.

http://foradazonadeconforto.blogspot.com/2010/01/tambem-sou-um-sobrevivente.html

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Bem-aventurados os Fracos


Ricardo Gondim

Passo por uma fase em que meus valores vêm mudando muito. Ultimamente sinto atração pelos fracos, pelos caídos e pelos desafortunados na vida. Tenho vontade de gritar: chega de campeões, chega de relatórios bombásticos, chega de testemunhos de vitória. Cada vez mais venho aprendendo a partilhar da felicidade dos que não faziam parte de meu universo. À medida que envelheço, percebo nuanças que meus olhos juvenis não enxergavam.

São bem-aventurados os que não têm pedigree. Afortunados os que vêm de famílias pobres e por isso podem cantar, como Luis Gonzaga: “Ai, Ai, que bom/ que bom que é/ Uma estrada e a lua branca/ No sertão de Canindé/ Automóvel lá nem sabe se é homem ou se é mulher/ Quem é rico anda em burrico/ Quem é pobre anda a pé/ Mas o pobre vê nas estradas/ O orvalho beijando as flores/ Vê de perto o galo campina/ Que quando canta muda de cor/ Vai molhando os pés no riacho/ Que água fresca, nosso Senhor!/ Vai olhando coisa a granel/ Coisa que, pra mode vê/ O cristão tem que andar a pé”. Esses serão amigos de gente como Jefté, filho de uma prostituta; de Davi, excluído por seu pai e irmãos; de Nelson Mandela, que viveu sem calçar sapatos até quase a vida adulta. Eles são felizes porque não nasceram de pais frustrados com o seu quinhão na vida. Assim, sem rédeas manipuladoras, puderam optar por vocações, dar vazão a talentos e seguir por sendas que não se prestavam a satisfazer o ego ou as expectativas dos que precisam se projetar em crianças indefesas.

Bem-aventurados os que não são belos. Felizes os que não se conformam aos parâmetros estéticos da sua geração. Essas pessoas precisam vencer os preconceitos mais sutis, que valorizam a beleza da pele e esquecem os valores do caráter. Elas são afortunadas porque precisam de uma têmpera diferente para vencer. Quando se candidatam a um emprego, sabem que não impressionarão pela cor dos olhos nem pelos seios volumosos. Essas pessoas trabalharão com mais afinco, valorizarão o suor que brota pela persistência, pois não vivem iludidas pelo reflexo que matou Narciso. Elas serão amigas de Lia, cuja beleza não se comparava à de Raquel, e entenderão o provérbio bíblico: “A beleza é enganosa, e a formosura é passageira” (Pv 3.10).

Bem-aventurados os deficientes físicos, os meninos com síndrome de Down e as meninas com paralisia cerebral. Suas vidas valem muito para os seus pais; seus sorrisos são valiosos e suas existências, uma constante lembrança de que os padrões da normalidade são mais largos do que essa geração hedonista admite. Eles nos lembram de que nossa existência não é um passeio despretensioso e que não podemos viver na ilusão do eterno prazer. A felicidade dos deficientes que disputam as para-olimpíadas, de Hellen Keller, que, cega e surda, graduou-se em universidade, e Ray Charles, que nos encantou com sua voz maravilhosa, tem um peso diferente do riso soberbo dos ricos e dos poderosos.

Bem-aventurados os que já pecaram, os que já deram vexames, os que já se desviaram da vontade de Deus, mas voltaram arrependidos tal qual o filho pródigo. Esses não têm o coração altivo, não se sentem merecedores de coisa alguma. Vivem dependentes da misericórdia; jamais teriam coragem de reclamar seus direitos. Os perversos mais malignos são pessoas que nunca transgrediram, que jamais erraram; portanto, não sabem como é a dor da maldade, não conhecem a culpa do mal praticado. Mas aqueles que já amargaram o fracasso são felizes, porque celebram a graça; não esquecem que se não fosse o favor de Deus, há muito já teriam perecido. Eles caminham ao lado de Abraão, que mentiu, de Moisés que matou, de Davi, que adulterou, de Pedro, que negou, e com eles repetem: “Suas misericórdias duram para sempre”. Só eles podem dizer, como a virgem Maria: “Minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, pois atentou para a humildade da sua serva” (Lc 1.46-48).

Bem-aventurados os que nunca experimentaram grandes vitórias e vivem sem grandes arroubos. São eles que não nos deixam esquecer que a maior parte de nossa existência acontece no contexto da rotina. Eles são felizes porque souberam viver sem a fadiga dos ativistas cheios de adrenalina. Vivem despretensiosamente ao redor de pessoas amadas e não se sentem obrigados a carregar o mundo inteiro em seus ombros. Não deitam a cabeça no travesseiro para acordar no dia seguinte com olheiras. Eles são felizes porque souberam caminhar pela existência sem desejos grandiloqüentes, sem ambições ou invejas. Eles serão parceiros de João Batista, José, Bartolomeu, Joana, e tantos outros discípulos de Jesus, cujas vidas aconteceram no anonimato.

Bem-aventurados os que não precisam viver uma vida sempre coerente. Eles sabem que estamos sempre em fluxo, que mudamos e precisamos abrir mão de verdades a que no passado já nos apegamos com muita firmeza. Eles não são dogmáticos, intolerantes nem legalistas. Essas pessoas são felizes porque nos lembram que o amor nos tornará incoerentes e imprevisíveis e que o nazismo montou-se sobre uma pretensa lucidez filosófica.

Bem-aventurados os que não sentem a cobrança de uma divindade infinitamente exigente. Eles podem ser eles, mesmos quando se percebem diante de Deus; não se amedrontam por serem imperfeitos ou por carregarem complexos e traumas interiores. Não temem a rejeição de Deus e por isso não precisam encenar uma espiritualidade plástica e afetada. Eles também ouvirão a voz que afirmou Jesus no dia do seu batismo: “Este é o meu filho amado em quem o meu coração está satisfeito”. Felizes os que nos ensinam que viver em intimidade com Deus significa saber que ele está satisfeito conosco e que não precisamos nos provar, pois seu amor não depende de nossa perfeição.

Bem-aventurados os que não se comparam aos poderosos nem invejam os triunfantes. Eles captam o significado do Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa, e sabem que é falsa a pretensão daquele que alardeia ter sido campeão em tudo. Reconhecem que o poeta está correto quando afirma: “Estou farto de semideuses”. E, em parceria com Pessoa, também clamam: “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana”. E, como ele, também gritam: “Arre, estou farto de semideuses. Onde é que há gente no mundo?” Esses serão amigos de Paulo, que mesmo no fim de sua vida, afirmou: “Eis uma verdade digna de toda aceitação; Cristo veio salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal”.

Assim, os meus novos heróis são pessoas que sempre estiveram ao meu redor e que nunca percebi. Agora vejo que nunca dera conta de que eles são descritos no Sermão da Montanha. Admito que essas constatações chegaram muito tarde em minha vida; contudo, espero que você aprenda a reconhecer os verdadeiros heróis antes do que fui capaz. Se conseguir lhe ajudar nessa tarefa, eu também me sentirei bem-aventurado.

Soli Deo Gloria.

domingo, 8 de agosto de 2010

Algumas Clareiras

Elienai Jr


Afinal de contas, do que estamos falando? Quando participo de conversas, com poucos ou muitos, e sou ‘condenado’ por falar coisas às quais jamais fiz referência: ‘quer dizer que agora temos que jogar fora tudo o que aprendemos desde o início? E tudo o que aprendemos de todos os pastores da nossa igreja?’ ‘Quer dizer que Deus não é mais onisciente?’ ‘Não podemos mais orar?’ ‘Deus é como qualquer homem, não pode conhecer todas as coisas?’ E outras generalizações desse tipo. A impressão que me resta é que os ‘corredores da futrica’ estão sendo mais freqüentados que as salas de conversa e, até mesmo, que os templos onde pregamos. Sinto uma igreja mais pastoreada nos ‘corredores da futrica’ que nas conversas e sermões de seus pastores. O que se fala nos corredores convence mais que o que se prega no púlpito. Meu pedido é, por favor, se sua crise é gerada por zelo, desista das (des)informações dos corredores. Ouça-me uma vez mais.

Não estamos jogando fora uma teologia e trazendo outra para o seu lugar. Nosso esforço é por aprofundar antigas verdades, por terminar a obra que começamos. Às vezes, para se terminar uma construção se paga um preço mais caro que o imaginado no início do projeto. Às vezes, é mais difícil e exige mais firmeza e coragem concluir um edifício que começá-lo. Acredito que é o que está acontecendo neste momento em nossa Betesda.

Não estamos desistindo de uma teologia, estamos avançando no projeto. Nossa teologia sempre se caracterizou por alguns compromissos, sentimentos e percepções que fundaram a Betesda, permitam-me sugerir alguns:

1. Acreditamos que o único Evangelho verdadeiro é o da Graça, nada do que recebemos de Deus é do tamanho de nossos méritos. Deus não nos deu porque merecemos, mas porque nos amou gratuitamente (Ef 2.5-10; Gl 3.3-5). Por isso não conseguimos acreditar em qualquer benção que seja conquistada por tamanho de fé, ou quantidade de oração. Afirmar que Deus abençoou porque se orou muito, ou com força, ou se acreditou mais é negar a Graça de Deus. É chamar Deus de débil em seu amor e misericórdia, ao ponto de precisar de nosso empurrãozinho devocional para amar melhor! O que é inaceitável.

Nenhuma benção vem de sacrifício e esforço humano, logo, corrente de oração ou campanhas que sugerem cumprir um rito de sacrifício para se conseguir uma benção é viver outro evangelho que não o da graça.

Pensando assim, oração não é uma forma de conseguir coisas, mas uma disciplina espiritual que busca intimidade, santidade, confissão, verdade, a glória de Cristo e não a realização de meus desejos, mas dos desejos de Deus.

2. Denunciamos qualquer expressão de espiritualidade em nossa prática que produza engano. (Gl 1.6-7) Abominamos qualquer esperança que se baseie na ilusão. A fé não ilude, não coloca vendas. Antes, acorda, abre os olhos para a verdade (2Tm 4.2-4). O evangelho é luz que revela a verdade e não uma maquiagem na realidade da vida. Negamos qualquer fé que se comporte como uma barganha com Deus (1Tm 6.3-6). Razão porque cedo denunciamos a teologia da prosperidade e os chamados movimentos da fé. Por essas denúncias já fomos chamados de pouco espirituais, ou mesmo incrédulos. Já fomos acusados de tirar a esperança das pessoas. No entanto, o que cremos é que a verdadeira esperança nunca ilude, nunca cria falsas expectativas.

Só há uma esperança que vale a pena, a que não engana com fantasias. A esperança do cristão não é a de uma vida facilitada e intocável, mas da presença incondicional do Pai que nos sustenta em seu amor. Aconteça o que acontecer, ouviremos a voz do Amado: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Diante do que, cada um de nós poderá sempre responder: Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.”

3. Acreditamos que a única forma de nossa relação com Deus ser de verdadeiro amor é termos sido criados com verdadeiro livre-arbítrio. Qualquer coação, determinismo, predestinação implica em negação da liberdade humana, tanto quanto, de um possível amor genuíno a Deus. Servimos a Deus porque o amamos e não porque fomos obrigados a isso. Por isso sempre afirmamos que o ditado popular ‘quem não vem pelo amor vem pela dor’ é uma inverdade. A Bíblia diz que Deus rejeita qualquer fé que não seja por amor verdadeiro. E amor verdadeiro é sempre livre, espontâneo e decidido. “Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. Dessa forma o amor está aperfeiçoado entre nós, para que no dia do juízo tenhamos confiança, porque neste mundo somos como ele. No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” (1Jo 4.16-19)

4. Recusamo-nos a buscar a Deus, ao próximo, ou mesmo, a viver em caixinhas conceituais. Deus não cabe em nossas tradições, em nossos conceitos, em nossa cultura, ou qualquer construção humana. Deus transcende a tudo e a todos. Por isso, nos primeiros anos de Betesda, fizemos ouvido de mercador para as acusações de que éramos a igreja do evangelho fácil, das inovações perigosas, dos mundanismos, porque usávamos retroprojetor nos cultos, nossas mulheres vestiam calças compridas, brincos e se maquiavam, nossa música era contemporânea e executada com quaisquer instrumentos disponíveis. Porque íamos ao cinema, teatro e ouvíamos música secular. Curiosamente, fomos um escândalo por essas coisas que agora são tão banais. Acredite! Essas coisas eram muito escandalosas e consideradas gravíssimas! Mas Deus usou a coragem da Betesda para libertar muitos irmãos do legalismo perverso.

5. Sempre acreditamos que a igreja já é a resposta de Deus ao clamor humano por justiça. O Reino de Deus não pode ser buscado sem a sua justiça. Não por acaso nossos empreendimentos sociais sempre acompanharam nossa evangelização. Sempre acreditamos que justiça social se faz com ação social e não com campanha de oração ou jejum. Que o faminto é saciado com pão e não com promessas covardes e irresponsáveis de um possível milagre. Curiosamente, as cidades e estados brasileiros onde algumas igrejas que prometem maravilhas e prosperidade mais crescem é justamente onde mais se alastra a miséria social. Na mesma proporção em que cresceram certos grupos religiosos brasileiros, cresceram a injustiça, a violência e a miséria. Caso típico e visível do Rio de Janeiro. “‘Por que jejuamos’, dizem, ‘e não o viste? Por que nos humilhamos, e não reparaste?’ Contudo, no dia do seu jejum vocês fazem o que é do agrado de vocês, e exploram os seus empregados. Seu jejum termina em discussão e rixa,e em brigas de socos brutais.Vocês não podem jejuar como fazem hoje e esperar que a sua voz seja ouvida no alto. Será esse o jejum que escolhi, que apenas um dia o homem se humilhe, incline a cabeça como o junco e se deite sobre pano de saco e cinzas? É isso que vocês chamam jejum, um dia aceitável ao Senhor? “O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado,vestir o nu que você encontrou,e não recusar ajuda ao próximo? Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada,e prontamente surgirá a sua cura;a sua retidão irá adiante de você,e a glória do Senhor estará na sua retaguarda. Aí sim, você clamará ao Senhor, e ele responderá;você gritará por socorro, e ele dirá: Aqui estou. “Se você eliminar do seu meio o jugo opressor, o dedo acusador e a falsidade do falar;se com renúncia própria você beneficiar os famintos e satisfizer o anseio dos aflitos, então a sua luz despontará nas trevas, e a sua noite será como o meio-dia. O Senhor o guiará constantemente; satisfará os seus desejos numa terra ressequida pelo sol e fortalecerá os seus ossos. Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam.”(Is 58.3-11)

6. Sempre nos recusamos a trocar as pessoas por programas ou razões teológicas. Mais importante que um programa ou organização são as pessoas que queremos amar e nelas promover o caráter de Cristo. Mais importante que manter um dogma, ou sustentar uma ortodoxia é acolher as pessoas em seus dramas pessoais. Nossa teologia procurou sempre ser uma resposta bíblica às verdadeiras questões da vida humana. Não defendemos conceitos, defendemos a dignidade humana devolvida pelo sacrifício de Cristo na cruz. Uma doutrina que não se sustenta na vida, que destrói, que afasta de Deus, que camufla fatos ruins não serve à vida e nem ao Reino de Deus. Não estamos preocupados em defender um conceito sobre Deus que, na vida comum, destoa da prática. Um amigo meu, pastor agora, reencontrou uma amiga da família de longa data, que logo lhe lembrou do pai, já falecido. Inevitavelmente fez referência à perda e emendou para consolar: – ‘Deus levou seu pai, mas teve um bom propósito para isso!’ Meu amigo, agradeceu com um sorriso amarelo. Passou pela sua cabeça todos os transtornos que enfrentou na vida. As dores que ainda carrega, suas fraquezas e medos. Pensou: que propósito é esse que Deus teve? Matou meu pai para me ensinar alguma coisa?

Não podemos lutar por conceitos que matam as pessoas e que nada produzem que faça sentido na vida comum.

Teologia na Betesda não se faz a partir de conceitos, mas a partir das pessoas. Nossa teologia tem que ser pastoral antes de ser conceitual. É dos dilemas e tragédias das pessoas pastoreadas por nós que buscamos respostas em Deus.

7. Não cremos em um Deus que faz acepção de pessoas ou mesmo se reduz à experiência de um apenas. Se Deus fez ontem, ele pode fazer hoje. Se Deus fez com o americano, faz também com o africano. Se agiu no desabamento de uma casa, agiu também no Tsunami. Não podemos acreditar que no mesmo instante que o garoto João Hélio, tragicamente assassinado no Rio de Janeiro, filho de um crente a caminho de uma programação evangelística, foi vítima da violência e, do outro lado do Brasil, alguém divulgue que porque é fiel a Deus no dízimo e nunca sai de casa sem orar, Deus o livrou de um assalto. Esse não é o Deus da Bíblia. O Deus da Bíblia é o que não faz acepção de pessoas. Ama a todos igualmente. Abençoa a todos igualmente.

Por essas razões, temos pregado uma mensagem que inspire as pessoas a levarem a sério sua liberdade (Tg 2.12-13). A não se esconderem por trás de desculpas ou ritos.

Não cremos em um Deus que escolhe alguns para a salvação e outros para o condenação. Cremos em um Deus que a todos ama e a todos quer salvar. Por isso afirmamos que não podemos crer em um futuro que já esteja pronto. E que afirmar que Deus conhece o futuro é o mesmo que afirmar que já está pronto. O que anula nossa liberdade e faz de Deus mentiroso, já que na verdade ele se relaciona conosco num tipo de ‘faz-de-conta’, em que ele já sabe o fim da história, mas finge que não. Deus conhece tudo. Mas o futuro não existe, por isso não pode ser conhecido, porque não há nada para conhecer.

Não acreditamos em uma espiritualidade preventiva. Do tipo ‘se eu fizer tudo certinho nenhum mal me atingirá!’ A Bíblia não promete uma humanidade isenta de acidentes, dores, injustiças, doenças e transtornos pertencentes a um mundo desajustado e inseguro como o nosso. Se Jesus veio entre nós e enfrentou todas as nossas dores, por que nós seríamos maiores que ele para sermos exceções? Se ele aceitou não fugir das horas mais difíceis, por que nós acreditamos que nossa oração nos poupará delas? E lhes disse: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem”. Indo um pouco mais adiante, prostrou-se e orava para que, se possível, fosse afastada dele aquela hora. E dizia: “Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres”.”(Mc 14.34-36)

Nosso momento é o de levarmos às últimas conseqüências o evangelho da graça e não do esforço humano. Da liberdade e não do determinismo arbitrário. Do Reino do amor e não do Reino dos privilegiados. Da cruz e não o das facilidades. Da verdade e não o da ilusão. Nossa pregação está apenas indo a fundo na graça, no amor e na verdade.

Há muito o que conversar. Não há pressa, o que há é a decisão de não deixar para depois.

Um abração,

Elienai

A mais divina visão

O que do humano mais esperamos não passa de divinização cruel. O que chamamos de humanização, frequentemente, nada mais é que a idealização narcísea do outro. Bondade, paciência, justiça, polidez, bom senso, honestidade, equidade, pureza e todas as demais virtudes. Tudo muito lindo no meu discurso, mas um pesadelo nos ouvidos e na consciência dos que me rodeiam.


Imponho ao outro o que em mim imagino poderia ser perfeito. Exijo e puno todos a minha volta na proporção em que preciso esconder de mim mesmo a impossibilidade amarga de ser tão bom. O divino que me tortura é abrandado na medida em que culpabilizo o mundo. A gigante e divina moral me esmagaria se eu não o fizesse aos demais. Eis a origem dos conflitos.

Certamente foi esta imagem invertida que Jesus denunciou no moralismo dos fariseus. Chamando-os de guias de cegos, sepulcros caiados. Acusando-os de imporem aos demais o peso que eles mesmos não conseguiam carregar.

Aqui tropeçam secularmente as religiões e as políticas utópicas. Partem de universais que tem a autoridade do “ponto de vista do olho de Deus” (Richard Rorty) e com esta força moral idealizam um futuro imprescindível ao mundo mais humano, ou mais divino, no caso das religiões. E do alto desta perspectiva tornam-se o criadouro fértil dos discursos culpabilizadores e de seus filhos inevitáveis, os mecanismos de disfarces. Esgotados a utopia e seus moralismos e fracassados os simulacros coletivos, resta-nos ou o gosto insosso da apatia, ou o azedo do mais ácido pessimismo diante da realidade da vida humana.

Aqui entra a proposta de salvação trazida por Jesus. Sua resposta pelo que é verdadeiro e capaz de produzir salvação não está em uma utopia escatológica, nem em uma política revolucionária. Muito menos a salvação se apresenta em um conteúdo capaz de descrever a verdade, nem uma prescrição moral do “ponto de vista do olho de Deus”, esta sempre mata, dirá o Apóstolo mais a frente. A salvação não virá de Deus sobre a humanidade, já se tentou e não deu certo. A divina salvação virá da mais autêntica humanidade. Por isso Jesus diz de si mesmo: “eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.” Não como idealização da vida humana, mas como humanização da idéia divina.

A salvação humana não está em uma glória divina. A glória de Deus é a vida humana plena de si. “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1.14)

Não há um ponto de vista do olho divino que não seja uma grande ilusão. Em Jesus, o que há de mais divino tem plena visibilidade entre os humanos. “Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido”. (Jo 1.18)

Jesus é o fenômeno humano experimentado sem tergiversações. Ele nasce em um mundo perigoso. Desenvolve-se na companhia de uma gente esmagada pelas políticas de dominação mundial. Cresce em um ambiente religioso tão intenso em sua devoção quanto o sofrimento e a humilhação de sua gente. Convive com a injustiça e a pobreza, com seus filhos miseráveis, as doenças do corpo e da alma. Mas levanta-se sob a autoridade de uma esperança profetizada e aguardada. Afirma-se o Cristo na medida em que realiza uma peregrinação libertadora.

No instante em que sua vida se torna um ingrediente de esperança, Jesus experimenta a mais cruel das manifestações de nossa humanidade, a injustiça. Sua influência também é um deslocamento de poder. E nada é mais temível para os poderosos que um jogo de poder que eles não saibam ou não possam jogar. Jesus inverte a moral dos conquistadores e chama de poderosos os mansos da terra, de legítimos herdeiros do Reino os pobres deste mundo, de bem aventurados os degredados pela desigualdade social. Relativiza as grandes doutrinas, volatiliza os ritos, elege os pequeninos como fonte de sabedoria e lhes confere o rosto divino. Aos poderosos só resta criminalizar alguém assim. Aos religiosos, reputá-lo herege e ameaça à fé. Criminoso e herege. Crucificado. Morto.

O percurso de sua morte não foi forrado por qualquer idealização. Foi um fim trágico e injusto e não se fingiu outra coisa. Nem Jesus aceitou qualquer movimento que escamoteasse a realidade dos fatos. Alertando aos discípulos sobre a confusão após sua prisão e morte, desconsiderou as palavras devotas e otimistas de Pedro: “Todos podem te abandonar, mas eu jamais te abandonarei”. Para a cura de Pedro Jesus deixou seu doce ceticismo: sua expressão de fé não duraria nem uma noite. “Antes que o galo cante…” Jesus também nos ensina a morrer.

Sob o testemunho de Jesus resta-nos retomar a pergunta pelo que nos humaniza, ou pelo que nos faz mais humanos. O humano não é uma divinização moral, já sabemos. Minha desconfiança é que o humano seja a própria liberdade. Que o humano seja a realidade de um ser que se descobre tão livre ante o seu destino quanto entregue ao absurdo de uma existência sem garantias excepcionais. Sua vida é assustadoramente provisória, mas esta também é sua salvação. Pois na vida os dissabores e insucessos também são provisórios. Sua fraqueza é sua força. A mesma fragilidade que o leva à tragédia é a flexibilidade que o leva à revolução. A suscetibilidade é a outra face necessária de sua liberdade. Suas conquistas podem ruir, mas Suas perdas também podem ser superadas.

Só existe outro nome além de liberdade capaz de nomear o fenômeno humano sem encapsulá-lo em uma moral asfixiante. Amor. A negação do humano, ou a desumanização, é todo e qualquer mecanismo que despreze a precariedade humana e finja uma divinização. É o cúmulo da indiferença. Mas a afirmação do humano, ou sua humanização, é um testemunho de amor. É a recusa de todo e qualquer processo de indiferença e fuga, é o abraço à vida em sua plenitude. Amor. A abertura mais corajosa e radical ao fenômeno humano.

O que nos salva em Jesus é seu testemunho de amor. Ninguém jamais viu a Deus, e sempre que tentou falar de seu ponto de vista, desumanizou. O que de Deus vimos em Jesus é tudo o que de Deus se pode ver: o humano do ponto de vista do humano, a mais divina visão.

Elienai Jr. - http://elienaijr.wordpress.com/

Pra que serve a apologética?

Sou o famoso chato. Além de procrastinador [nome terrível], sou chato. Sei que a eterna arte de deixar tudo pra última hora só não entrou no hall da fama dos pecados capitais por culpa de alguém procrastinando. Mas não sei de quem é a culpa de minha chatice. Acostume-se, tentei mudar, mas sou chato. Fazer o quê?

Sou chato principalmente sobre as questões de fé. Não sou descolado. Não sou fundamentalista. Você tampouco me terá em cima do muro. Simplesmente porque tenho mais o que fazer do que tentar me equilibrar em cima de muros. Ou não. Mas não gosto de muros, não sou descolado nem fundamentalista. Ateu? Herege? Chato!

Creio em demônios, sim, mas não acredito neles. Nem nos da old school nem nos modernos e modernosos. Creio menos ainda nos seus exorcistas. Vá por mim, a cada dez rituais de exorcismo; em nove, nem Deus nem o capeta se fazem presentes. Mas o negócio funciona como serviço público, é preciso criar cabides de emprego pra tanta gente com medo de dar a cara a tapa por conta própria.

Creio em Deus, sim, e acredito nele. Acredito a ponto de não me preocupar com o que falam dele ou em nome dele. Acredito em Deus por motivações minhas, não por conta de algum interesse ou vantagens resultantes da coisa. Mas não me peça pra ficar uma hora na frente da TV, ouvindo pessoas definindo Deus. Depois o chato sou eu.

Creio que hoje é sempre o oitavo dia, o dia do recomeço. O oitavo dia é sempre meu. Não me importo em saber se Gênesis é literal ou literário, não quero saber de onde veio a semente que deu origem ao mais lendário pé de maçã da história. Importo-me apenas que o oitavo dia é o dia do homem bater perna e correr atrás do que lhe importa. Disso não tenho dúvida.

Quais são as minhas dúvidas? Poucas. Dúvidas de quem tem poucas certezas. De quem é chato porque acha tudo isso muito aborrecido. Acho os extravagantes enfadonhos. Detesto gente babando no chão e se contorcendo por excesso de Coca-cola com açúcar e dizendo que foi o toque de Deus. Aborreço-me facilmente com gente que fala demais sobre o mesmo assunto. Falta de assunto é sinal de qualquer coisa, menos de espiritualidade. Bocejo na cara de quem vem me contar o testemunho de prosperidade que ouviu falar de alguém ou que viu na TV. Tenho a impressão de quem vive o evangelho da prosperidade também se casou apenas pelas vantagens de ter sexo, casa arrumada e alguém obrigado a aturar suas canhestrices.

Até esta coisa de ser descolado me aborrece. De trocar o nome das coisas. De chamar igreja de ‘outra coisa’, de falar que é contra a religião, de chamar Coca-cola de chá-com-gás e continuar tomando quatro litros por dia, mas metendo o malho em quem toma sua coquinha feliz da vida. Toda vez que alguém me chama pra ir a um lugar que ‘não é igreja’, ouvir alguém que ‘não é pastor’ falar algo que ‘não é pregação’, além de contribuir com algo que ‘não é oferta’ e devolver algo que ‘não é dízimo’ pergunto se posso participar daquilo que ‘não é ceia’ tomando um líquido cevado e gelado, mas que ‘não é cerveja’.

Mas tem uma coisa que me transtorna, que me deixa mais chato ainda. Os apologistas. Meu Deus, de onde veio essa gente? Até hoje ninguém me tirou da cabeça que a apologética é uma coisa criada pela concorrência, só pode. Esta semana soltei no meu twitter [cerca de 600 seguidores, metade evangélica]: ‘Pra que serve a apologética?’. Resultado? Vinte unfollows em poucos minutos. Nenhuma resposta. Engraçado, os apologistas não respondem o que são, não gostam que se pergunte o que são e apelam com quem pergunta. Acho que, na verdade, não sabem o que são.

O Aurélio diz que ‘apologia é a arte de defender, justificar, promover’. O que vejo os apologistas evangélicos defendendo é qualquer coisa menos sua fé. Defendem suas crenças, seus usos e costumes [mesmo os apologistas que são contra os usos e costumes tradicionais], seus dogmas, suas visões de céu e inferno, seus projetos políticos e suas visões de mundo.

Sempre achei uma falta de ter o que fazer ficar explicando porque o cristianismo é uma religião melhor que a adoração ao santo abacateiro temporão. Tenho suspiros dignos do Charlie Brown ao ver extravagantes versus neopentecostais versus pentecostais versus reformados versus católicos versus ortodoxos versus todo-mundo. Se fé fosse sexo, apologia seria masturbação. Já viu alguém feliz em seu casamento defendendo o tempo todo as bases de sua escolha e as dez razões irrefutáveis porque se casou com a Aninha e não com a Joaninha?

Quer minha definição? Pois bem, apologética é a arte de falar sobre algo que você não tem a coragem de viver. Talvez seja só chatice minha. Eu sou mesmo um chato. Mas também sou um palhaço sem circo, do tipo que faz pra graça pra todo mundo, mas não pra qualquer um.

fonte: Tom Fernandes

http://tomfernandes.wordpress.com/2010/04/05/pra-que-serve-a-apologetica/


sábado, 31 de julho de 2010

Não me empurrem, por favor


Ricardo Gondm

Não tolero multidões. Não gosto de empurra-empurra. Sou de fácil convivência, mas não aceito me ver constrangido a fazer o que não quero. Sou dobrável, mas eu viro cavalo xucro quando noto que estão tentando encabrestar-me.

Suplico, não me empurrem para heroísmos vazios de significado. Recuso calçar coturnos que me deixariam com o garbo dos vencedores. Por mais que implore, alguns insistem, e não se conformam que eu não queira encarar certos desafios. Na fábula, a raposa desprezou as uvas que não conseguiu alcançar. Eu, todavia, desprezo as uvas que já comi. Testemunhei as vaidades de quem se sentia “usado por Deus” e vi que os “ungidos” viviam inebriados por seus discursos; mal conseguiam pisar o chão sujo, comum aos mortais. Mas, olhando para trás, os “usados por Deus” não passavam de celebridades bem acostumadas com palcos.

Suplico, não me empurrem para rinhas teológicas. Não aceito provocações. De nada adianta chamar-me de herético, apóstata, desviado. Quando era menino, briguei todas as vezes que mexeram com a mamãe. Mas passei dessa fase. Noto que alguns têm uma vontade doida de ganhar fama às minhas custas. Ainda dolorido com a sorte de centenas de milhares que morreram no Tsunami asiático, cai na esparrela de replicar a alguém que criticou o que escrevi. Acabei dando notoriedade aos argumentos de um fundamentalista, que subitamente ganhou notoriedade. Nunca mais deixarei que me façam de escada para que discursos assépticos fiquem conhecidos.

Suplico, não me empurrem para ambientes que desprezo. Não tentem me convencer que alguns eventos são precisos para o avanço do Reino de Deus. Não pretendo validar conceitos que estão embutidos em congressos que tentam consolidar dogmatismos toscos. Não vou a simpósios ideologicamente submissos a patrocinadores ricos. Quero pensar e me sentir livre para dizer o que penso. Filho de um preso político, sinto asco dos Torquemadas de qualquer estirpe.

Suplico, não me empurrem para longe de quem luta pela vida. Perdi todo o medo de quem não faz parte de meu arraial. Gosto de literatura e nunca pergunto a filiação religiosa dos grandes romancistas. Li “O Velho e o Mar” de Hemingway, “A Pérola” de Steinbeck, “Fogo Morto” de José Lins do Rego, “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, “Crime e Castigo” de Dostoievski e nunca perguntei se eram crentes, ateus, ou agnósticos. A cravo de Mozart, o pincel de Van Gogh, o cinzel de Michelangelo, os passos de Gandhi, as preces de Madre Teresa e a militância de Martin Luther King estão acima dos minguados catecismos do movimento evangélico.

Careço de leveza para caminhar, minha sina é pesada. Sentado à mesa para escrever, quero espaço para os cotovelos. Já não tão jovem, não posso jogar tempo pela janela com sufocos e encontrões. Naturalmente introspectivo, sofro com os constragimentos de quem gosta de guiar manadas. Por isso, insisto em minha súplica: não me empurrem, por favor.

Soli Deo Gloria

Prece de contrição

Ricardo Gondim

Deus meu,

Vez por outra percebo o desastre da maldade. Como um presidiário que, de repente, acorda em uma cela solitária, dou-me conta de minha culpa. Alquebrado, desperto para o sutil processo que vinha corroendo as minhas entranhas. No chão tosco que me ralou a testa, aprendi que o mal que me possuiu tem o gosto amargo do desastre

Primeiro, dispersei o foco; depois, foram-se as prioridades; aí, acabou-se o receio; finalmente, perdi a alma. Se existe alguma conspiração para arruinar-me, eu sou o seu protagonista principal. Aceito as acusações desferidas contra mim, não tenho álibis.

Réu confesso e pecador condenado, admito: adormeci envaidecido por méritos que nunca tive. Quantas vezes, certo de que confessava uma doutrina verdadeira, criei o pântano que me afogou de soberba. Ao fugir do diálogo difícil com aqueles que não faziam parte de meu universo conceitual, condenei-me a respirar o ar mortiço dos ambientes legalistas.

Volto o retrovisor para o passado e choro desperdícios. Como um louco que rasga dinheiro, piquei muito tempo em minha vida. Sim, pisei na chance de celebrar momentos preciosos com amigos; os meus olhos foram cegados por um complexo messiânico, que fazia com que eu me achasse onipotente e eterno.

Estou ciente de que sou indigno da graça, mas mesmo assim celebro a gratuidade de teu amor. Extasiado, não consigo explicar uma divindade que ama os indignos. Eu, porém, testemunho o teu olhar brando e, por algum motivo, absorvo um bem querer transcendental. Sinto-me acolhido quando, inquieto, choro as minhas incoerências, os meus atropelos, as minhas insensatas decisões e os meu estúpidos hábitos.

Não peço por um ponto de apoio. Nesta prece, não imagino que tudo se resolverá. Sei que não acontecerá uma mudança repentina em minha história. Reconheço que no dia da minha morte, a árdua tarefa de humanizar-me ficará incompleta. Sofrerei muitos retrocessos. Porém, eu te peço que nesses retrocessos, tu me ouças quando clamar: "Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo, tem misericórdia de mim".

Soli Deo Gloria

Carta a alguns amigos,

Amigos, chamo-os de amigos porque os distingo como leais (alguns distantes) parceiros de sonho. Dores, alegrias, frustrações e entusiasmos juvenis nos uniram através da palavra escrita. Portanto, por vocês, retomo a série de textos que denominei de “Mentoria”. Quero participar, de alguma forma, na aventura de viver; talhando, no granito, nossos sonhos e marcando, na areia, nossas pegadas.

Escrevo com sentimentos ambíguos. Por um lado, vivo os momentos mais intensos e frutíferos de minha vida e ministério. Por outro, reconheço, convivo com uma vizinha azeda: a tristeza. Mas sei que não estou só, ela nos azucrina e nos açoita sempre que pode. É uma tristeza latente, que participa de toda a angústia humana. A que Pascal chamava de enui e Sartre, de náusea. Nos últimos anos, recebi coices, frutos de minhas provocações, mas alguns, convenhamos, de maldades gratuitas. Os baques me deixaram tonto, com vertigem que ainda não passou.

Contudo, li “Trem Noturno para Lisboa” de Paul Mercier, Editora Record, e o autor aconselha que nos reconciliemos com a desilusão:



A DESILUSÃO é considerada um mal. Trata-se de um preconceito irrefletido. Como, se não através da desilusão, iríamos descobrir o que esperamos e desejamos? E onde encontrar um momento de autoconhecimento, senão precisamente a partir desta descoberta? Como alguém poderia ter clareza acerca de si próprio sem a desilusão?

Não deveríamos sofrer as desilusões suspirando como algo sem o qual nossa vida seria melhor. Deveríamos procurá-las, persegui-las, colecioná-las. Por que me sinto desiludido com o fato de todos os atores idolatrados da minha juventude agora revelarem os traços da idade e da decadência? O que a desilusão me ensina sobre quão pouco vale o sucesso? [...]

Alguém que realmente quer conhecer a si mesmo deveria ser um colecionador obcecado e fanático de desilusões, e a procura de experiências decepcionantes deveria ser, para ele, como um vício, na verdade como um vício dominante de sua vida, pois então ele compreenderia com toda a clareza, que a desilusão não é um veneno quente e destruidor, e sim um bálsamo refrescante e tranquilizante que nos abre os olhos para os verdadeiros contornos de nós mesmos.

(Paul Mercier em Trem Noturno para Lisboa - Editora Record, p. 233).

Confesso publicamente minhas desilusões. Contudo, procuro desalojar a decepção de seu negativismo. Assim, acredito que algumas questões não podem ficar esquecidas devido as angústias. Enfrentemos as tristezas. Elas não são tão medonhas como parecem.



1. Os períodos magros, as estiagens, os marasmos não significam fracasso automático. A história há de repicar. A vida não é paraíso, nem inferno. Compete-nos a dura tarefa de não nos deixar esmagar pelo sofrimento ou inebriar pelo triunfo. Diante da real possibilidade de nossos projetos fazerem água, não nos iludamos com desculpas esfarrapadas. Os insolventes podem se reinventar. Ressurreição é termo que só se aplica a quem passou pela experiência da morte.

2. As tribulações oferecem excelente oportunidade para percebermos o excesso de bagagem. O que se tornou oneroso na vida? O que foi procrastinado em nome de lealdades institucionais? Na borrasca, joguemos fora a carga desnecessária. Assumamos a coragem de dizer adeus ao que não tem valor.

3. Nas desilusões, nos adequamos ao pior, e qualquer leve melhora parece um paraíso. Aprendemos a sobreviver sem fazer concessão, sem negociar valores, sem vender a alma. As desilusões nos incitam a fazermos reengenharia de nossa estrutura existencial.

Ricardo Gondim
http://ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=104&sg=0&form_search=&pg=1&id=2302