sábado, 31 de julho de 2010

Não me empurrem, por favor


Ricardo Gondm

Não tolero multidões. Não gosto de empurra-empurra. Sou de fácil convivência, mas não aceito me ver constrangido a fazer o que não quero. Sou dobrável, mas eu viro cavalo xucro quando noto que estão tentando encabrestar-me.

Suplico, não me empurrem para heroísmos vazios de significado. Recuso calçar coturnos que me deixariam com o garbo dos vencedores. Por mais que implore, alguns insistem, e não se conformam que eu não queira encarar certos desafios. Na fábula, a raposa desprezou as uvas que não conseguiu alcançar. Eu, todavia, desprezo as uvas que já comi. Testemunhei as vaidades de quem se sentia “usado por Deus” e vi que os “ungidos” viviam inebriados por seus discursos; mal conseguiam pisar o chão sujo, comum aos mortais. Mas, olhando para trás, os “usados por Deus” não passavam de celebridades bem acostumadas com palcos.

Suplico, não me empurrem para rinhas teológicas. Não aceito provocações. De nada adianta chamar-me de herético, apóstata, desviado. Quando era menino, briguei todas as vezes que mexeram com a mamãe. Mas passei dessa fase. Noto que alguns têm uma vontade doida de ganhar fama às minhas custas. Ainda dolorido com a sorte de centenas de milhares que morreram no Tsunami asiático, cai na esparrela de replicar a alguém que criticou o que escrevi. Acabei dando notoriedade aos argumentos de um fundamentalista, que subitamente ganhou notoriedade. Nunca mais deixarei que me façam de escada para que discursos assépticos fiquem conhecidos.

Suplico, não me empurrem para ambientes que desprezo. Não tentem me convencer que alguns eventos são precisos para o avanço do Reino de Deus. Não pretendo validar conceitos que estão embutidos em congressos que tentam consolidar dogmatismos toscos. Não vou a simpósios ideologicamente submissos a patrocinadores ricos. Quero pensar e me sentir livre para dizer o que penso. Filho de um preso político, sinto asco dos Torquemadas de qualquer estirpe.

Suplico, não me empurrem para longe de quem luta pela vida. Perdi todo o medo de quem não faz parte de meu arraial. Gosto de literatura e nunca pergunto a filiação religiosa dos grandes romancistas. Li “O Velho e o Mar” de Hemingway, “A Pérola” de Steinbeck, “Fogo Morto” de José Lins do Rego, “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, “Crime e Castigo” de Dostoievski e nunca perguntei se eram crentes, ateus, ou agnósticos. A cravo de Mozart, o pincel de Van Gogh, o cinzel de Michelangelo, os passos de Gandhi, as preces de Madre Teresa e a militância de Martin Luther King estão acima dos minguados catecismos do movimento evangélico.

Careço de leveza para caminhar, minha sina é pesada. Sentado à mesa para escrever, quero espaço para os cotovelos. Já não tão jovem, não posso jogar tempo pela janela com sufocos e encontrões. Naturalmente introspectivo, sofro com os constragimentos de quem gosta de guiar manadas. Por isso, insisto em minha súplica: não me empurrem, por favor.

Soli Deo Gloria

Prece de contrição

Ricardo Gondim

Deus meu,

Vez por outra percebo o desastre da maldade. Como um presidiário que, de repente, acorda em uma cela solitária, dou-me conta de minha culpa. Alquebrado, desperto para o sutil processo que vinha corroendo as minhas entranhas. No chão tosco que me ralou a testa, aprendi que o mal que me possuiu tem o gosto amargo do desastre

Primeiro, dispersei o foco; depois, foram-se as prioridades; aí, acabou-se o receio; finalmente, perdi a alma. Se existe alguma conspiração para arruinar-me, eu sou o seu protagonista principal. Aceito as acusações desferidas contra mim, não tenho álibis.

Réu confesso e pecador condenado, admito: adormeci envaidecido por méritos que nunca tive. Quantas vezes, certo de que confessava uma doutrina verdadeira, criei o pântano que me afogou de soberba. Ao fugir do diálogo difícil com aqueles que não faziam parte de meu universo conceitual, condenei-me a respirar o ar mortiço dos ambientes legalistas.

Volto o retrovisor para o passado e choro desperdícios. Como um louco que rasga dinheiro, piquei muito tempo em minha vida. Sim, pisei na chance de celebrar momentos preciosos com amigos; os meus olhos foram cegados por um complexo messiânico, que fazia com que eu me achasse onipotente e eterno.

Estou ciente de que sou indigno da graça, mas mesmo assim celebro a gratuidade de teu amor. Extasiado, não consigo explicar uma divindade que ama os indignos. Eu, porém, testemunho o teu olhar brando e, por algum motivo, absorvo um bem querer transcendental. Sinto-me acolhido quando, inquieto, choro as minhas incoerências, os meus atropelos, as minhas insensatas decisões e os meu estúpidos hábitos.

Não peço por um ponto de apoio. Nesta prece, não imagino que tudo se resolverá. Sei que não acontecerá uma mudança repentina em minha história. Reconheço que no dia da minha morte, a árdua tarefa de humanizar-me ficará incompleta. Sofrerei muitos retrocessos. Porém, eu te peço que nesses retrocessos, tu me ouças quando clamar: "Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo, tem misericórdia de mim".

Soli Deo Gloria

Carta a alguns amigos,

Amigos, chamo-os de amigos porque os distingo como leais (alguns distantes) parceiros de sonho. Dores, alegrias, frustrações e entusiasmos juvenis nos uniram através da palavra escrita. Portanto, por vocês, retomo a série de textos que denominei de “Mentoria”. Quero participar, de alguma forma, na aventura de viver; talhando, no granito, nossos sonhos e marcando, na areia, nossas pegadas.

Escrevo com sentimentos ambíguos. Por um lado, vivo os momentos mais intensos e frutíferos de minha vida e ministério. Por outro, reconheço, convivo com uma vizinha azeda: a tristeza. Mas sei que não estou só, ela nos azucrina e nos açoita sempre que pode. É uma tristeza latente, que participa de toda a angústia humana. A que Pascal chamava de enui e Sartre, de náusea. Nos últimos anos, recebi coices, frutos de minhas provocações, mas alguns, convenhamos, de maldades gratuitas. Os baques me deixaram tonto, com vertigem que ainda não passou.

Contudo, li “Trem Noturno para Lisboa” de Paul Mercier, Editora Record, e o autor aconselha que nos reconciliemos com a desilusão:



A DESILUSÃO é considerada um mal. Trata-se de um preconceito irrefletido. Como, se não através da desilusão, iríamos descobrir o que esperamos e desejamos? E onde encontrar um momento de autoconhecimento, senão precisamente a partir desta descoberta? Como alguém poderia ter clareza acerca de si próprio sem a desilusão?

Não deveríamos sofrer as desilusões suspirando como algo sem o qual nossa vida seria melhor. Deveríamos procurá-las, persegui-las, colecioná-las. Por que me sinto desiludido com o fato de todos os atores idolatrados da minha juventude agora revelarem os traços da idade e da decadência? O que a desilusão me ensina sobre quão pouco vale o sucesso? [...]

Alguém que realmente quer conhecer a si mesmo deveria ser um colecionador obcecado e fanático de desilusões, e a procura de experiências decepcionantes deveria ser, para ele, como um vício, na verdade como um vício dominante de sua vida, pois então ele compreenderia com toda a clareza, que a desilusão não é um veneno quente e destruidor, e sim um bálsamo refrescante e tranquilizante que nos abre os olhos para os verdadeiros contornos de nós mesmos.

(Paul Mercier em Trem Noturno para Lisboa - Editora Record, p. 233).

Confesso publicamente minhas desilusões. Contudo, procuro desalojar a decepção de seu negativismo. Assim, acredito que algumas questões não podem ficar esquecidas devido as angústias. Enfrentemos as tristezas. Elas não são tão medonhas como parecem.



1. Os períodos magros, as estiagens, os marasmos não significam fracasso automático. A história há de repicar. A vida não é paraíso, nem inferno. Compete-nos a dura tarefa de não nos deixar esmagar pelo sofrimento ou inebriar pelo triunfo. Diante da real possibilidade de nossos projetos fazerem água, não nos iludamos com desculpas esfarrapadas. Os insolventes podem se reinventar. Ressurreição é termo que só se aplica a quem passou pela experiência da morte.

2. As tribulações oferecem excelente oportunidade para percebermos o excesso de bagagem. O que se tornou oneroso na vida? O que foi procrastinado em nome de lealdades institucionais? Na borrasca, joguemos fora a carga desnecessária. Assumamos a coragem de dizer adeus ao que não tem valor.

3. Nas desilusões, nos adequamos ao pior, e qualquer leve melhora parece um paraíso. Aprendemos a sobreviver sem fazer concessão, sem negociar valores, sem vender a alma. As desilusões nos incitam a fazermos reengenharia de nossa estrutura existencial.

Ricardo Gondim
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